Difícil falar sem ser ouvida,
ouvir sem ter o que falar,
falar sem ouvir a si próprio,
estar sendo um, dois, três, quatro em um só
dentro de paredes diferentes.
Difícil manter-se em linha reta,
o mundo exige tanta coisa concreta
e meu ser é abstrato demais para não se perder, se misturar.
Difícil essa coisa de ser parte de um núcleo,
quando por dentro você se parece mais com uma mandala étnica
do que com um ponto, escuro e denso.
Difícil entender que não é preciso ser sempre entendida,
a dúvida quer sempre se auto explicar,
mas explicações não se cabem
a ouvidos surdos e corações distantes da sensibilidade.
Difícil depender e ter poder sobre algo,
é como derrapar no asfalto,
você se perde sem nem ver,
dar-se conta ás vezes afasta a lucidez.
Difícil, difícil, difícil, assumir tantos eus,
ser fonte de desordem no espaço,
criar caos, ser repreendida, punida
pela própria condição de existir.
Difícil se manter constante num equilíbrio disfarçado,
esperançoso por uma vida de aparência,
uma perfeição inexistente,
inalcançável.
Difícil remar o barco,
quando a correnteza é mais forte que o seu braço.
Difícil ser parte de um todo, ser um todo com as partes difusas,
e o todo externo fundir-se entre todos e partes incongruentes.
Difícil não sacrificar sua criança interna, sua idealização,
suas particularidades, sua individualidade, sua independência intelectual,
suas fantasias carregadas entre os bolsos... até que você se afaste,
tanto, tanto, tanto, do que você foi um dia,
a ponto de não reconhecer-se mais no espelho.
A partir disto, emerge a linha tênue entre o fácil e o difícil,
onde é escolhido: acolher-se e renascer das cinzas ou dar-se adeus de vez.
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