03.03.2018
Eu fui por muito tempo, a representação de algo que não existe mais
eu sou uma lutadora que sempre fez de tudo pra sair de si mesma
mas não conseguiu
falhei miserávelmente
Ficando presa em mim mesma
o mundo não foi suficiente pra me alcançar
o mundo me distancia de mim
apesar de ironicamente
ele fazer parte de mim e eu dele.
Então as representações talvez foram a verdadeira fuga
um modo que aprendi a lidar
quando eu estava impenetrável
Elas eram reais, necessárias
e me satisfizeram durante muito tempo.
Só não mais do que nos momentos que fui eu mesma, de fato, no âmago
pude sentir o gosto de ser quem eu sou por completo
e foram muitos
e sou grata por isso
A parte disso, existia uma pessoa que não se encaixava
que olhava para ao seu redor muitas vezes se sentindo alheio a ele
Por que eu não consigo ser melhor que isso?
Por que eu não consigo ser espontânea assim? Gargalhar assim? Me esforçar desse jeito?
Mas eu amava minha introspecção e me agarrava a ela, e isso fazia sentido.
Eu queria lidar melhor com as coisas, então as representações de partes de mim que eu tentava fazer existir faziam eu chegar mais perto de quem eu queria ser, pro mundo, pelo mundo.
Só que dentro disto existia um vazio enorme.
Porque era ali que eu enxergava a linha tênue que gritava pra mim que aquilo jamais seria eu.
E agora não sei mais o que é essa especialidade dificil de ser definida
de quem eu sou.
Só posso ponderar que no momento eu sou apenas um ser humano que ainda tá pulsando e respirando.
E eu não sei o que fazer com isso.
Não sei o que quero ou se há a mínima vontade de ir além disso.
Não consigo pensar em vontades, futuro, projeções...
porque a imagem captada sobre elas não me agrada.
Não posso nem me definir como uma pessoa que tá tentando,
porque eu realmente não estou.
Talvez eu esteja esperando, circunstâncias, momentos certos.
Por enquanto só sobra uma constante sensação de indigestão ao repousar meu olhar por qualquer coisa que seja.
Vez em quando eu ainda me deparo com o encanto...
mas ele de um caráter muito fraco comparado com a força disto.
É como se todas as minhas potências tivessem sido desativadas
ou como se fugissem de mim
eu não consigo encontrá-las
não consigo alcançar algo meu o suficiente pra resolver mais essa merda.
Só consigo reparar em uma única força que ainda se sobressai em meu ser nesse momento, em meio a um completo vazio, dentre tantas possibilidades existe a de tentar sobreviver pelo menos mais esse dia, exatamente como uma dívida a ser paga.
09.03.2018
Não há o que pensar sobre passado ou futuro
não há nenhum sonho aceso como uma chama
há somente essa incongruência de ser um sobrevivente
essa sensação de dever a sua existência ao universo
e mesmo que esteja tudo ruim
sou imposta, talvez por mim mesma, a permanecer.
Estou numa estrada um pouco dificil de reconhecer
uma linha reta
sem perspectiva de destino
com um panorama inalcançavel aos olhos
a caminho de lugar nenhum.
Uma inércia gritante se faz presente
não há o que fazer, apesar de haver
não há vontades, apenas fantasias acerca de sentimentos que já não estão mais aqui
me sinto como um fantasma preso a um cenário que já viveu
cansavelmente, como um filme que se repete.
As paredes de mim me cercam
e meus passos ficam cada vez mais reduzidos
fazendo com que eu me sinta perdida
em um cômodo que não reconheço mais.
Não sei pra onde fui
não sei sequer pra onde eu vou
qual seria o proximo passo em contraste com isso que tenho chamado de vida?
Um vazio enorme preenche essa vida robótica
Todos os dias cumprindo afazeres que deveriam em tese me tornar humana
e talvez faça parte da natureza humana cumpri-los
Mas depois disso ou enquando isso, sobra essa falta de entendimento, de conexão.
É triste estar vivo e viver como se já estivesse morto.
Mas nem sempre foi assim
Parte de mim mantinha uma luz, uma inspiração, gratidão e uma força
e eu não sei pra onde foram, porque se esconderam de mim
eu tenho tentado alcança-las, mas não parece ser o suficiente
Será que eu vou ter que morrer pra renascer?
É doloroso morrer porque você idealiza uma vida feliz
e pra mim é fácil pensar nessa possibilidade porque eu não consigo
enxergar a felicidade como uma coisa real pra mim.
me sinto fora de um sistema do qual já fiz parte
observo as pessoas e desejo alcançar a vitalidade delas
mas isso nem foi sempre possivel pra mim
na maioria das vezes vivo me arrastando, tentando puxar energia de
qualquer coisa que faça eu permanecer em pé, cercada de representações baseadas em um manual condicionado do que é ser um ser humano.
Nesse momento perdi todos os meus referenciais sentidos
a vida faz muito sentido quando se luta por algo em que se acredita, como um sonho se constroi e doa beleza para o mundo. Isso é viver linda e plenamente.
E eu já alcancei um pouco disso, já cheguei muito perto.
Mas agora isso não parece mais possível porque a máquina que possuo na minha cabeça não encontra uma razão, um porque, um e se.
E o coração que costumava pulsar e se fazer centro de meu organismo, meu guia e minha estrela, parece ter se tornado invisível.
O que restou foi um ser humano que sobrevive e não sabe o que fazer com a própria vida.
E isso enfim, me faz pensar no próprio fim.
A linha de chegada
o meu limite
e a minha fraqueza
talvez esteja enraizada na dor de não possuir mais significado
nem pra mim mesma, nem para o mundo.
18.03.2018
eu quero morrer? quero
tenho medo? um pouco
especifique o medo: de ser doloroso e da morte enquanto realidade
conhecer finalmente o que ela é de fato, perante tantos simbolos
desevendar o mistério...
São muitos
Um dia cheguei a acreditar que o fim seria exatamente o aquilo que a gente acreditasse.
Hoje não sei mais no que acredito, são muitas coisas a se acreditar.
Mas mesmo assim prefiro acreditar que tudo vai ficar bem.
Não queria desapontar Deus, uma vez eu li que devemos temê-lo. E eu temo. Mas sinto um amor tão grande. Ele será capaz de me perdoar e de me acolher em seus braços, se assim for.
Foi me dado um presente, a vida. Talvez eu tenha escolhido vir ao mundo, talvez eu tenha vindo pra evoluir ou fui só uma coincidencia evolutiva.
Mesmo assim penso que tenho o direito de escolha.
Não, não se engane, aqui não há nenhuma guerra.
Não há nenhuma doença degenerativa.
Nenhum extremo.
Tenho todas as ferramentas necessárias disponiveís e suficientes para viver e me fazer feliz. Existem pessoas com menos que fazem sua existência extraordinária.
Eu tô cansada de saber disso, não estou fechada pro mundo, pelo menos não para enxerga-lo com o mínimo de clareza possível.
Ainda assim consigo ser ingrata ao renegar tudo isso
não alcanço mais sonhos, possibilidades
na verdade sinto uma morte diária, como se houvesse um conômetro
não consigo ver sentido em tentar
talvez porque eu não queira
travo constantemente uma guerra contra mim mesma
não me sinto capaz, nem digna, nem admirável
como se estivesse fadada a uma vida miserável
me falta amor
coragem
energia
brilho
talento
força
só sobram as comparações
a incapacidade
inércia
falta de entendimento
desconexão.
Não gosto da pessoa que sou agora
não suporto a pessoa que pode surgir diante desta
não me consideraria um ser
não quero viver por obrigação
nunca quis
sempre soube que eu teria uma saída de emergência
não para um problema, porque problemas são solucionáveis
e sim para uma existência sem sentido, dotada de significado
apenas pela sobrevivência.
As soluções podem estar aí:
"Mas você tem que focar nisso...
Você tem que se formar...
Você tem que sair...
Se esforce..."
enquanto na minha cabeça ecoa: pra que? por que? até quando?
Eu sei que é drástico, e eu sei que há um freixo de luz em algum lugar
e que preciso encontra-lo, mas ele está completamente inalcançável pra mim agora. Eu não consigo. Eu estou desiludida e longe de mim mesma. Só restam os complexos, a incapacidade.