sábado, 31 de outubro de 2015

O outro inabitável

Eles dizem saber mais do que eu
se apropriam de um produto interno
bruto, pontudo do feitio de um escudo
do meu poder de escolha
e julgam-se superiores e ilesos
de qualquer possibilidade
de gritos e berros.
Sou aquilo que eles não querem ser
mas se permitem ver apenas
o que se vê sob a superfície
não enxergam as entrelinhas.
Entrelinhas dizem mais
do que os cinco sentidos são
capazes de apurar.
Sentidos individuais
moldados para encaixar-se
numa sociedade hipocritamente projetiva.
Ler as entrelinhas exige sensibilidade
desapego ao conhecido
para embarcar no desconhecido
inabitável mundo particular
do outro.

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Você não fala
mas eu escuto
Você sente
Ressoa em mim
Você não entende
Muito menos eu

E hoje o dia estava um pouco como eu
cinza, garoa fina e uns feixes de luz
só pra mostrar
quem ainda tem eu.

quinta-feira, 15 de outubro de 2015

Linha do Tempo

Difícil falar sem ser ouvida,
ouvir sem ter o que falar,
falar sem ouvir a si próprio,
estar sendo um, dois, três, quatro em um só
dentro de paredes diferentes.
Difícil manter-se em linha reta,
o mundo exige tanta coisa concreta
e meu ser é abstrato demais para não se perder, se misturar.
Difícil essa coisa de ser parte de um núcleo,
quando por dentro você se parece mais com uma mandala étnica
do que com um ponto, escuro e denso.
Difícil entender que não é preciso ser sempre entendida,
a dúvida quer sempre se auto explicar,
mas explicações não se cabem
a ouvidos surdos e corações distantes da sensibilidade.
Difícil depender e ter poder sobre algo,
é como derrapar no asfalto,
você se perde sem nem ver,
dar-se conta ás vezes afasta a lucidez.
Difícil, difícil, difícil, assumir tantos eus,
ser fonte de desordem no espaço,
criar caos, ser repreendida, punida
pela própria condição de existir.
Difícil se manter constante num equilíbrio disfarçado,
esperançoso por uma vida de aparência,
uma perfeição inexistente,
inalcançável.
Difícil remar o barco,
quando a correnteza é mais forte que o seu braço.
Difícil ser parte de um todo, ser um todo com as partes difusas,
e o todo externo fundir-se entre todos e partes incongruentes.
Difícil não sacrificar sua criança interna, sua idealização,
suas particularidades, sua individualidade, sua independência intelectual,
suas fantasias carregadas entre os bolsos... até que você se afaste,
tanto, tanto, tanto, do que você foi um dia,
a ponto de não reconhecer-se mais no espelho.
A partir disto, emerge a linha tênue entre o fácil e o difícil,
onde é escolhido: acolher-se e renascer das cinzas ou dar-se adeus de vez.

Árvore da Vida

Nas minhas raízes
encontram-se fincados
os mais singelos momentos,
lembranças e esquecimentos,
que retornam e encontram a mim como um signo.

Minhas folhas se esgueiram pelos galhos
esquivam-se do cascalho que vem com o vento,
se prendem a mim num ímpeto particular
ao mesmo tempo que se elevam aos céus,
aos seus azuis, cinzas, nublados, claros,
admirando a perfeição que a mim falta.

Essa árvore está na minha estrada,
na minha alma, corpo, na pele que fala.
É dela o valor de minha permanência no mundo,
me faz brotar mesmo entre as névoas do escuro,
seja no limbo, orla, império ou santuário,
ela me firma no chão dando significado
ao simplório feito que é andar no mundo
sob meus próprios pés.

A chuva leva consigo todos os pesos.
O sol vigoriza as vísceras, tira a podridão do caule, leva com a poeira,
podridão a qual me vulnerabiliza e põe-me em estático desalinho.
O luar traz consigo a imensidão fortaleza do feminino,
me empodera inspiradoramente
a ser genuinamente o eu que vislumbro no profundo côncavo de (r)existir .

E o dia com o seu clarear, sim, o dia...
Traz consigo o possível fruto
de florescer (crescer) sem avexamento.
Só quer trazer o silêncio,
de um pássaro que canta por cantar.

Pureza, beleza, encanto, leveza...
Fazem parte da natureza
fertilizam minh'alma, minh'árvore, minha destreza.
E produzem consigo uma atmosfera harmonicamente benevolente
Capaz de elevar qualquer presente.

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Lucidez?

Solidão
firmada na confusão.
Distorção.
Os pés continuavam no chão,
e o pensamento pairava entre nuvens e pássaros.

O mundo tocava a música
e o rádio sincronizava.
O ambiente zumbia,
arranhando aos ouvidos.

Captava as mensagens
que o seu universo particular
queria gritar.

Projetava-as para o mundo
que ficou cada vez mais surreal,
enquanto ela se perdia
na linha que estava presa a sua mão.

O grito saiu do corpo,
que respondeu por todos
os atos aniquilados
por uma mente racional
que silenciava seu emocional,
transcendental.

Aqui e agora
junta-se os cacos
de um corpo que assume o peso
de uma mente singular.

Não venha estranhar
a maneira dela se colocar.
Deixa a asa se desdobrar,
que a flor vai acordar
e a menina, evoluir.

A sede de se encontrar
não vai cessar.
A voz de quem quer falar,
não vai se calar.
A fé de quem acredita,
não some na escuridão.
Se tem confusão ou não, tanto faz, tanto fez.
A luz da lua, vai ficar de vez.
Essa sim, é a sua lucidez.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Um passo de cada vez
perdida em pedrinhas no caminho
mesmo assim o olhar se mantem no horizonte
se fazendo constante a consciência
de ter uma alma plena.

quarta-feira, 7 de outubro de 2015