sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Crônica sobre aceitação e sensibilidade

  Lembro de uma vez, em um curso que tomei, houve uma confraternização de conclusão do curso, onde foi feita a seguinte dinâmica: cada um deveria entregar um presente de mentirinha, junto com um qualitativo dirigido a pessoa a quem você entregou. (o mesmo presente para todos - ou seja, repassá-lo). O professor ficou encarregado de começar com um adjetivo, e então, sorteava alguém na caderneta e o próximo participante pegaria o presente e entregaria a aquela pessoa a qual ele achou que a palavra definia. E então ele dizia outro adjetivo, o professor sorteava novamente e o próximo procurava uma pessoa com esse adjetivo. E assim por diante.
  Conforme a dinâmica foi acontecendo, e os adjetivos foram sendo expulsos daquelas bocas, minha mente ia ao mesmo tempo ficando presa àquela magia do momento e também divagava, calculando qual qualidade eu me encaixaria ou não - sob os olhos daquelas pessoas reunidas naquela sala.
  Lembro também de estar num momento fragilizado, de pouca autoestima, de achar que eu deveria ser mais, me fazer mais e portanto me subestimei e fui me identificando apenas com os qualitativos "polêmicos", ou "sem graça". Lembro também de como fui surpreendida, ao ver ser sorteado um colega que eu pouco conhecia -apesar de seu olhar e sua postura dizer muito sobre sua alma- e ao vê-lo me presentear com um abraço, com uma sinceridade enorme e com a beleza da palavra: sensível! Falou de um jeito que me senti realmente assim, por dentro e por fora. E a sala inteira concordou, em alegria - por ele ter acertado em cheio - Lembro de ter segurado o choro (estava frágil, sem conexão comigo mesma e fui profundamente surpreendida depois de esperar qualitativos que nada combinavam com este). Logo fui absorvida pra outra realidade. A palava girava na minha cabeça: sensível, sensibilidade, sensível, sensibilidade. Vertiginou. "Logo eu? sensível? o que eu tenho de sensível? o que eu tenho de externamente sensível? posso até internamente ser, mas não pensei que enxergariam isso em mim" fiz uma longa viagem, até chegar o ultimato "verdade, sou sensível pra caramba". E lembro de ter transbordado uma atmosfera de reconhecimento, de leveza, de liberdade. Enfim, sensível, assumida e reconhecida.
  Relembrei do acontecido após ler um texto sobre sensibilidade, veio o insight, a nostalgia, a emoção. Hoje, acho que provavelmente 2 anos após o fato (ou mais, não me recordo o exatidão) percebo o quão afetada, distorcida e emaranhada estava a minha imagem sob mim mesma. Era eu, com toda a minha sensibilidade e essência que tenho hoje (diminua um pouquinho de maturidade e autoconhecimento) porém acobertada por medos feios, resistências que eu nem sequer sabia da existência, máscara, receio de se mostrar - natural, nua, crua e livre - pro mundo. Não sei ao certo se essa experiência me tocou profundamente ao ponto de mudar a partir daquele momento, mas reconheço que foi bonito que alguém me fizesse enxergar exatamente o que eu tava precisando ver em mim, e receber de mim, e exteriorizar pro fundo. Encobrir e proteger feito uma cristal minha sensibilidade nunca foi saudável, nunca foi o certo. Mas naquele momento era o que eu precisava fazer, porque não adiantaria eu lidar na prática, sem ser no eu comigo mesma, com uma característica (ou as características, porque a mudança não se refere só à sensibilidade em questão) que eu não dominava e que eu não estava pronta para exteriorizar.
  Esse texto é sobre todos aqueles processos de aceitação pelos quais passamos - e que não entendemos, mas acreditamos que serão de grande valia - sobre a dor e a doçura do processo de autoconhecimento e de se encarar no espelho mesmo, se enxergar. É sobre evolução, uma oração para que continuemos evoluindo a caminho de nós mesmos - porque ser, não pára - e que reduzamos ao máximo qualquer máscara ou tentativa de mascarar a nossa verdade interior. Porque vale a pena ser. Como diria Leminski "isso de querer ser exatamente aquilo que a gente é ainda vai nos levar além" e leva, pode acreditar nisso.

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