segunda-feira, 4 de agosto de 2014

s-e-r

Às vezes chega um momento na vida da gente que a gente se reencontra consigo mesmo. Com o verdadeiro "mesmo". Bem, voltando um poquinho na história, vamos anteceder o momento do reencontro. Há certos acontecimentos na vida que parece que a gente pega um espelho com um zoom monstruoso, ultra megapixalizado, e a gente se enxerga bem de pertinho, vai fundo, quase navega na gente... e a gente não gosta muito do que vê. E então a nossa única alternativa é mudar, ou nos afogar de vez em nós. E a gente escolhe mudar. Mudar um defeitozinho aqui, esticar uma virtude ali, reinventar um jeito assim, ficar de um jeito assado, e de pouquinho em pouquinho a gente fica novinho em folha com os ponteiros nos devidos lugares. E simplesmente continuamos. O zoom diminui um pouco, pra que tanta história de olhar tanto pra si? Autoconhecimento demais limita, diz a lenda. E a vida passa. 
Vivemos quase certos de que somos exatamente aquilo que devíamos ser, até que se prove o contrário. E aí vem o reencontro: ponteiros desajustados, zoom e seus megapixels aguçados como nunca. A vista fica um pouco embaraçada, acuidade visual precária; que só aos poucos vai se adaptando ao ambiente... e de repente, "pera aí, reconheço esse lugar" e isso gera um misto de espanto com dúvida e insegurança. Chegou o contrário. "Mudamos?", " Não somos mais quem deveriamos ser?",  "O que devemos ser?",  "O que somos de verdade?",  "E que tanta puta de interrogação é essa?" O caos se instala. E gente fica meio perdido, sabendo o que a gente é, mas sem saber o que fazer disso. 
Acho que é por isso que muita gente prefere tanto ter, ter, ter... pra esquecer de s-e-r um pouquinho. Porque ser, é coisa de gente grande, meu amigo. Ser não estaciona, ser é movimento. Ser, nunca se completa. E depois de tantos encontros e reencontros, a gente aprende isso. Viver é estar pronto pros desajustes, pro despertador, pro zoom, pro caos. 
E a cada descoberta nova como essa a paz se instala de novo, as interrogações apaziguam e só resta tempo mesmo pra ser, sem se preocupar com mais nada... até que nos provem o contrário de novo. Ninguém nasce coisa, torna-se coisa... e isso é a mais pura e simples liberdade. Nós que de vez em quando nos limitamos mesmo, fazer o quê? Paciência. 

Nenhum comentário:

Postar um comentário